sábado, 2 de junho de 2012

Não ligue pra ela...

O sinal fechou. Parei. Do meu lado esquerdo a ponta de uma parachoque entrou no meu campo de visão e fui acompanhando o movimento, passando pelo pneu, a lateral, até estar emparelhado com a janela. 
A mulher falava sem parar. O corpo jogado pra frente, praticamente escondido atrás do volante e a cabeça voltada para o rádio no painel. 
Quando parou de falar, se recostou no banco, por quatro, cinco segundos. Em seguida, se projetou de novo em direção ao painel, e assim sucessivamente por quase um minuto.
Isso que é tecnologia. Bluetooth!!
Imagino o vendedor explicando:
- Agora a senhora vai poder estar conversando com as amigas sem se preocupar. Não precisa mais segurar o celular. A senhora vai falar pelo rádio do carro. Perfeito!
Só faltou explicar que não precisa ficar toda torta no banco e nem colar a boca nos botões do rádio.
É ridículo sim,, mas pense, de verdade, quantas vezes eu e você já fizemos papel de bobo quando nos deparamos com uma novidade.
Por equanto só não ligue para ela para contar...você pode provocar um acidente. 



Choro

Os olhos ficaram marejados. Inundados aos poucos...até que a lágrima vence a barreira e escorre, lenta, triste, procurando caminho pelo rosto, deixando um rastro fino. 
O dedo interrompe a trajetória, desvia o curso discretamente, quase com vergonha. Espalha pela pele os resíduos, que o dorso da mão se incumbe de dar fim. Tentativa apenas, frustada. 
Juntam-se outras a primeira lágrima, e ainda que não exageradas, em quantidade suficiente para escapar ao controle.
Um gosto salgado se precipita sobre os lábios e a emoção posta para fora se internaliza. 
Fecham-se os olhos, como se fechados melhor pudessem ver as marcas deixadas. Não se pode. Abertos tão pouco...

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Os seios dela


Diferenças há, é verdade, mas...
É quase imperceptível, ou melhor, perceptível apenas para o apaixonado que bota reparo e busca na sutileza das partes a beleza do conjunto.
De um forma ou de outra, quando frente a frente, apático não se fica. Todos os sentidos são estimulados...primeiro a visão, sim, nós homens somos assim mesmo, cobiçamos. O olhar nos desperta a vontade, e se permitido nos for - a decisão nunca é nossa - o passo seguinte será o tato. Ah, é nessa hora que nos deixamos inebriar pela textura, e ainda que a mão repouse aqui ou ali, o resto de nós está em movimento. O olfato brinca com nossa imaginação. Aspiramos o perfume, único, intransferível. 
Perto, bem perto, roçamos a boca, a língua, sentimos o gosto.
Nosso corpo é então parte, hora visão, hora tato, hora olfato, hora paladar...só nos tornamos inteiros quando nos permitimos ouvir. E basta um sussurro..."meu seio é todo seu".
Alí nos sentimos seguros, alí gozamos...a vida!!




terça-feira, 8 de maio de 2012

Tem medo de quê?

Amo a pessoa que é coração por inteiro. E digo de cara que não se trata de romantismo, ainda que entenda que mal algum faz. Observe que também não faço referência a gênero, refiro-me, tão somente, a pessoa.
O que me atrai de verdade é a vulnerabilidade subentendida. Você há de concordar comigo que a sentença revela, antes de qualquer coisa, falta de medo, ou melhor, coragem para se mostrar.
É ou não verdade que esse é nosso maior tormento?
Evitamos dizer “não sei”, com medo da avaliação que os outros façam da nossa competência; não dizemos “amo você”, com medo que a pessoa amada tome a declaração como uma fraqueza nossa; não colocamos uma idéia em debate, com medo de sermos mal interpretados, ou sequer, entendidos; nos enchemos de arrogância para afirmar que não nos importa a opinião do outro, quando na verdade é através do outro que construímos o eu.
Por essas e por outras, amo a pessoa que diz “meu coração é meu corpo inteiro”, porque inteira está, corre riscos, não tem vergonha dos próprios limites ou dos caminhos percorridos para superá-los.
Ser coração é ser vulnerável sim, e nada, nada mesmo, nos impulsiona tanto em direção a novas descobertas...
Tem medo de quê??

domingo, 6 de maio de 2012

O grito

O silêncio me acolhe de forma brusca. Deu sinais de que chegaria, não posso negar.
Esse intervalo entre o fim e o começo veio se revelando mais rápido que o passar das horas e talvez por isso, é tão somente uma suposição, me pegou assim, meio sem rumo.
É como se estivesse eu a espera de um até breve ou de um olá. Nenhum som preencheu o vazio, sussuro algum sequer. 
A noite não se despediu, e o dia não deu as caras ainda. Um hiato de tempo, uma sombra de nome madrugada.
Leviana às vezes, traiçoeira. Nos embaça a visão, embaralha os sentidos...nos coloca frente a frente com nossos medos, desperta nossos fantasmas.
Já não há silêncio...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O preço do jeitinho....

O vôo não estava cheio, talvez por conta do horário, seis da manhã. Assim que o avião começa a taxiar dois homens se levantam e tentam mudar para as poltronas da saída de emergência, um pouco mais espaçosas do que as demais.
Imediatamente a aeromoça informa que eles não podem ficar ali, ainda que as duas fileiras estejam completamente vazias.
A razão é simples: não pagaram pelos assentos.
Um deles olha com incredulidade. O outro ameaça reclamar e solta apenas uma frase irônica, do tipo "é que tem muita gente mesmo".
A cena me fez lembrar de uma situação semelhante que presenciei a primeira vez que estive em Nova Iorque, onde as relações de consumo são bem mais claras.
Bom, lá fui eu assistir os knicks contra os Jets, um clássico, ainda mais no Madison Square Garden. Passeio de turista sim, mas que vale cada centavo de dólar.
O setor onde estava não era dos melhores, mas longe de ser dos piores...cadeiras numeradas todas elas são. Ainda assim cheguei cedo, sabe como é, mesmo com o ticket na mão há sempre aquela desconfiança de encontrar alguém no meu lugar, enfim.
O jogo começa e lá pela metade do primeiro tempo boa arte dos lugares continuava vazio, inclusive fileiras a minha frente, com uma visão melhor da quadra.
Perguntei para um torcedor ao me lado porque ninguém mudava de lugar, já que aqueles eram melhores.
- Pagamos por esse, não por aquele...
Cesta amigo, e de três pontos!!!!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Nossa fantasia está rasgada...

Deixemos para trás os foliões e falemos dos fanfarrões do nosso carnaval...parece sintomático um dirigente de uma “escola” virar o jogo na marra quando o jogo perdido está. Isso sim que é lição, principalmente de alguém com uma longa ficha de serviços prestados ao crime!!!
Sintomático também é a fala do governador Sérgio Cabral, na segunda-feira de carnaval. Segundo ele é preciso profissionalizar as escolas para que elas possam “sair do controle de quem quer que seja – bicheiros ou milicianos, qualquer agente ilegal.” E completou: É ilegalidade em cima de ilegalidade. O romantismo acabou há muito tempo”.
Novidade não é, diga-se a verdade. Mas de tempos em tempos a harmonia entre samba e crime atravessa a avenida, e aí amigo, não há lugar para fantasias...inclusive a que se refere a nós jornalistas.
O enfoque das nossas coberturas geralmente é a paixão, o luxo, as personagens do espetáculo. Raramente, corrija-me se estiver enganado, abordamos os bastidores, a origem das verbas, o compasso da ilegalidade forjado além dos barracões e quadras.
Não seria esse um enredo pertinente, de interesse público?
Se você é da mesma opinião que a minha há de concordar que precisamos evoluir nesse quesito, sob o risco de sermos rebaixados.